quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Lembrete

Nunca se esqueça de que és única no mundo, mas também de que está sozinha. Ninguém é capaz de ser 100% fiel. Ninguém será exclusivamente seu.
Conforme os anos passam, você amadureceu e passou a encarar a vida com mais frieza. Tente ser mais leve, com cautela.

A confiança no outro virá. Não se apresse, ela virá.

Ass: você mesma, nas 20 e tantas semanas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Zé, parte 1


- Acorda, Zé. Porra! Eu não disse que íamos sair às 20h? Já são 19h30.

Zé abriu os olhos assustado. Depois de dormir na cama de Pedro e sonhar 8 horas com a mesma cena, acordou sobressaltado. Esfregou os olhos com as costas das mãos, sentou-se na beira da cama e ficou alguns minutos analisando os próprios pés, tentando voltar à realidade. “É, aconteceu!”, pensou.

- Vamos Zé! Vai ficar aí parado? Não aguento mais te ver em casa. Vai! Vai pro banho – disse Pedro, jogando uma toalha azul em seu colo.

Zé olhou pra toalha, anestesiado. Tomou coragem e levantou. Foi até o banheiro do pequeno apartamento de Pedro e encarou o espelho pela primeira vez nas últimas 24 horas. Seus olhos estavam inchados, tristes, buscando alguma resposta. Ele não tinha resposta. Não podia, nem queria voltar atrás. Separou-se da mulher que amava, sentia seu peito doer, mas sabia que tudo aquilo iria passar.

Ligou o chuveiro, tomou um banho aliviante, mas deixou a barba por fazer. Ao se deparar com suas roupas, hesitou ao escolher aquela camisa vermelha, pois ela adorava vê-lo com ela. Dispensou a escolha: vou de camisa branca. 
Se vestiu, arrumou o cabelo e estava pronto pra reiniciar a vida de solteiro.

- Tá pronto? – chamou Pedro.

- Acho que sim, vamos.

Chegaram ao bar. Uau! Fazia anos que Zé não passava por ali. Outros bares abriram na região, um pessoal mais elitizado começou a frequentá-los. Tinha até música ao vivo. Bem diferente de 6 anos atrás, quando ia só jogar uma partida de sinuca com os amigos. Encontrou o restante dos amigos e pediu um chopp.

Sentiu-se perdido. Estava ali, mas sua cabeça estava em outro lugar. Olhava para outras mulheres: todas novas demais, todas alegres demais, cabelos loiros demais, decotadas demais. Só pensava nela e em seu sorriso, nas suas mãos, suas saias longas e na sua habilidade ao mentir. Sentiu raiva e mais dor.

Seus amigos falavam sobre o último Carnaval, as mulheres com quem ficaram, a bebida a mais, as drogas a mais. Falavam sobre facebook, whatsapp e instagram. E Zé se perguntava por quanto tempo ficou fora do planeta Terra. Não tinha nem um smartphone. Não sabia de mais nada. Não tinha assunto e se sentiu um velho.

Zé estava triste. Um burro triste.

Ao perceber sua tristeza, Lorena se aproximou.

- Hey, cabeça... Posso me sentar?

Ao levantar os olhos, Zé exclamou surpreso:

- Lorena?

A moça respondeu com um sorriso.

Aos 15 anos, Zé e Lorena estudaram juntos. Ele foi apaixonado pelo jeito de Lorena: sonhadora, desencanada, pés no chão.

Começaram a conversar e Zé percebeu que estava sorrindo. Fazia tempo que alguém não o fazia sorrir. Mas mesmo assim, percebeu que ao conversar com Lorena, só falava de Natália e de seus cabelos, daquelas mãos em sua barba, seu sorriso perturbador e sua facilidade em trair.

Cansada, Lorena interrompeu a conversa, sem jeito:

- Me liga, Zé. Quero te ver feliz. Me liga! Pra um chopp, sei lá...

Lorena foi embora pra casa lembrando do dia em que Zé lhe roubou um beijo no colégio e depois a dispensou: “Será que ele se lembra?”

As pessoas nos fazem doer.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

sobre o apego

"Sabe, o apego é como segurar com bastante força. Mas o amor genuíno é como segurar com muita gentileza, nutrindo, mas deixando que as coisas fluam. Não é ficar preso com força. Porém é muito difícil para as pessoas entenderem isso, porque elas pensam que quanto mais elas agarram alguém, mais isso demonstra que elas se importam com o outro."

"Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que podemos ser preenchidos pelo outro será certamente muito complicado."

(Monja Jetsunma Tenzin Palmo)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

digerindo a solidão


Entrou em seu quarto, abriu as janelas e mergulhou na sua cama para olhar o céu estampado de estrelas. Acendeu um cigarro e colocou “Redondo Beach” para tocar, no repeat. Ficou imaginando as cenas cuspidas pela voz da Patti Smith enquanto passava as mãos pelos cabelos (sua mania de todas as noites antes de dormir, já que não tinha ninguém pra lhe fazer carinho) , enquanto desejava que uma estrela cadente passasse ali, no momento do refrão.

Mas não aconteceu.

Tirou a roupa e sentiu-se livre de todo o dia que passou. Levantou da cama e foi em direção ao banheiro. Ligou o chuveiro e esperou a água esquentar bastante, até fazer com que o banheiro ficasse úmido, parecendo uma sauna. Entrou debaixo da água quente e começou a cantar em voz alta, livrando-se das reminiscências do dia anterior. Queria ficar ali debaixo pra sempre, molhando os cabelos e todo o rosto, deixando os dedos enrugados de tanta água quente...
Finalmente desligou o chuveiro e colocou o roupão convencional. Voltou para o quarto, para a cama, para a meia-luz e para a janela.
Seu gato já estava confortável debaixo dos lençóis e ela acendeu mais um cigarro; desta vez o tragaria com o chá que havia preparado antes de entrar no quarto. Tomou um gole de chá e deu mais um trago intenso em seu cigarro de menta. “De menta pra não deixar gosto ruim”, dizia para os curiosos. Mas a menta já estava tornando-se parte do seu enjôo diário, então ela prometia todos os dias que iria parar de fumar.
Ela queria parar de fumar, de beber e de sair para lugares que envolviam bebida e cigarros. Ela queria parar de comer animais e de fazer sexo sem amor. Ela queria ser uma estrela ou um gato para dormir o dia inteiro e acordar à noite.
Deitou-se na cama de lençóis pretos e travesseiros brancos. Deitou nua, para sentir a sua cama por inteiro e assim, descansar melhor. Voltou a olhar as estrelas e pensou na imensidão do céu e na vontade de estar tão longe dali. Olhou para seu gato – ele parecia compreender. Desligou o abajur cor-de-rosa e tentou dormir ao som da voz que mais adorava – a voz do silêncio.

Ela queria o mundo e nunca estava satisfeita com o mundo que tinha.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

As conversas que eu ouço por aí: “Quem sou eu pra julgar?”


“Oi amiga! Tô zen! Voltei de um retiro espiritual abençoado. Até queria te chamar pra ir na minha Igreja e... Como? Quem? Não acredito! Nossa, ela é ótima em querer aparecer né? Mas, fazer o que, cada um sabe o que é melhor pra si. Nooossaa!! É muito ridícula, mesmo. Com certeza a indireta foi pra você. Mas não se atinja! Sério?? Falou um monte da outra agora virou amiga. Cada coisa que a gente vê por aí né? Duas cobras juntas, vão se dar bem! Mas, assim, né, nada contra. Quem sou eu pra julgar?”

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Rabujem (verbo intransitivo)

Se eu pudesse fazer um pedido ao gênio da lâmpada, pediria pra ele devolver a minha empolgação. Não que eu seja uma pessoa triste, mas se tem uma coisa que eu não sou é empolgada. Não sei se é porque eu sou desligada demais e acabo achando tudo muito normal ou se é porque eu sou chata mesmo.

O grande fato é que eu não sou do tipo que fala alto ou que dá pulos e gritinhos quando vê as amigas de longa data; que acham o máximo a viagem que o colega de trabalho fez pra Nova York, pra torrar a grana da PLR no free shop. “Mas que sujeito chato sou eu, macaco, praia, carro, jornal, ‘tóbugã’... Eu acho tudo isso um saaaaaco!!” (grande Raul Seixas!).

Não consigo me alegrar com a coleção de sapatos de verão da Arezzo ou com Tomorrowland. Não me interessa se aquele namoro de mil anos dos meus melhores amigos vai virar casamento. Uma hora ia virar casamento ou não, não é mesmo? Isso é legal, é motivo para comemorar. Mas é legal e ponto. Não é o máximo, ao ponto de me fazer suspirar de surpresa e mobilizar esforços para organizar um chá de cozinha (desculpe, amigas, mas não é!) – As pessoas geralmente odeiam minhas demonstrações de afeto que não ultrapassam um abraço ou um beijo seco.

Nunca fui de grandes eventos, nem de muitos amigos. Sempre estive ao lado dos excluídos no colégio e nunca fui uma garota popular. Mas por quê? Na verdade, eu queria ter dom daquelas pessoas que fazem amizade fácil.

Isso me lembra Flávia!

Flávia é uma menina bonita. Ela estava ficando com um amigo meu e ele sempre me falava: “Você precisa conhecer a Flávia. Vocês vão se dar super bem! São bem parecidas. A Flávia gosta das mesmas coisas que você. A Flávia é demais. A Flávia é isso, a Flávia é aquilo.” Ele falava tanto da Flávia que chegava a me irritar um pouco. Ciúme, talvez.
Chegou o grande dia. Conheci a Flávia. Bonita, com um sorriso branco de dar inveja e realmente muito feliz. Chegou sorrindo, me abraçando e dizendo: “Nossa, o Caio não para de falar de você. Ele disse que temos muito em comum!”. “Ah, ele disse?” (pensei eu, querendo sair correndo dali).
E não é que a garota era a simpatia em pessoa?? Daquelas mulheres que acreditam ser suas amigas de infância, que falam alto e sabem de tudo: de música, livros, baladas, jogos, fofocas, tendências, economia, política e religião.Tudo!

Nossa amizade não durou. Na verdade, a nossa amizade nunca nasceu, porque eu confesso que aquele jeito íntimo me assustou. Não consigo fazer a íntima. Bem que eu gostaria! Gostaria muito! Gostaria de ser assim, com todos, sempre. Chegar ao trabalho com um sorriso, puxar conversa no banheiro com a mulherada, gritar ao me empolgar e me derreter com um coro de “ooooouuuunnnsss” ao ganhar o primeiro pedaço de bolo do namorado. Queria ser aquela que grita “discurso! discurso!” e agita o parabéns. Ou que organiza o aniversário da amiga e manda um e-mail super fofo pra todo mundo combinando uma surpresinha:

“Oi lindaaasss! Amanhã é aniversário da Nickyyyy. Vamos comprar um presentinho MARA pra ela? Ainnn, ela vai amarrr!!! Amodoro vocês!”

Queria ser a abelha rainha da trupe, que junta o bando de amigas para ir ao cinema chorar num filme romântico!

Ou que dá um BOM DIAAAAA bem longo.

Não, “Bom dia” bem longo me irrita. Na verdade, a fofura me irrita.

...

Se eu encontrasse o gênio da lâmpada, ia pedir pra ele sumir com a minha irritação. Mas pediria pra ele me deixar com o meu jeitinho rabugento “fofo” de ser.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Êxtase

é quando eu vejo você chegar - camiseta branca, cabelo escovado pelo vento, sorriso nos olhos ao ver minha boca se aproximar da sua. é quando seu abraço me envolve e eu fico pequena, aninhada em seu peito, sentindo o perfume do seu pescoço, meu lugar favorito do mundo. é quando depois da discussão, vem o pedido de desculpa e uma noite apaixonada. é dar risada do exagero dos outros, é ficar de bem com a nossa simplicidade. é planejar o futuro juntos, depois da vontade de ir embora pra sempre. é querer não ir embora. é quando o sábado acaba e o domingo amanhece, mais um dia pra nós dois. é quando meu peito dói de saudade e a sexta feira chega. foi no primeiro beijo, foi no reencontro e é assim, todos os dias que eu te vejo e que eu me faço sua, você meu. é quando eu percebo que errei, meu pedido de desculpas e seu olhar aliviado ou vice-versa. é quando eu sinto que a vida, depois de uma rasteira safada, nos colocou de volta pro caminho certo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Pro futuro, eu e você.

Igual ao pôr-do-sol na montanha. Sorriso de criança. Fruta tirada do pé. Banho de cachoeira. Acordar com a sua respiração. Luz do sol invadindo a janela do quarto. Seu coração batendo perto do meu, sua risada, segurar sua mão e não deixar você se vestir pra ir trabalhar. Beijar teu rosto, te entregar sorrisos e passear em você. Ouvir o barulho de chuva como trilha sonora de sonho. Bater palmas. Lambuzar o rosto, manga rosa em mãos. Caminhar descalços todos os dias. Caminhar descalços na grama, quando der. Seu abraço. Sempre o seu abraço. Conversas desconexas, propostas decentes ou não. Pernas entrelaçadas. Você me ver chorando ao cortar cebolas e ouvir Caetano. Pintar nossa parede. Te sujar com a tinta que pinta a nossa parede. Pizza e filmes preferidos. Fotografias. Entender quando dói e fazer parar de doer. Você me dizendo que eu sou ciumenta e vice-versa. Tomar banho de chuva. Caminhar pela praça. Ver a bagunça que deixou no quarto e te presentear com meu olhar bravo. Seu deboche por eu não saber fazer contas. Aumentar o som quando tocar aquela música que a gente gosta. Você se arriscando na cozinha e eu irritada com a bagunça que fez. Minha euforia e sensibilidade com comerciais bonitos. Coração acelerado e mãos suando. Quero te amar sempre e te achar ridículo de vez em quando. Seu sorriso só pra mim. E nós dois, um do outro. Pra sempre!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

boas vindas à vida

Quando eu pensei que meus pés caminhariam retos, vem você, me mostrando que a vida tem graça, mais uma vez.
Mas quando você me pegou de surpresa, não foi tão engraçado assim. Foram dias de preocupação e "chororô". Dias de "o que foi que eu fiz" e de incertezas. Dias de enjôo e dores de cabeça.
E foi só te ver pela primeira vez, com o coração batendo forte, que a minha armadura se fez em mil pedaços e meus olhos marejados se uniram ao meu sorriso sincero, daqueles que a gente abre sem perceber, sem esforço algum.
Ao te ver ali, tão pequeno, uma felicidade sem tamanho tomou conta de mim por inteira e minha alma se fez nova, pura.

Ainda não entendo quase nada da vida.
Ainda não tenho muito o que lhe ensinar.
Ainda sou pequena diante do universo que teremos que enfrentar.
Mas o que eu puder fazer para te proteger, eu farei.
E o meu coração já é seu... por inteiro.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

voltei a cantar

Quero registrar que, depois de muito tempo, voltei a sorrir, a cantar e a imaginar o futuro próspero. Voltei a confiar, a me entregar e a entender o real valor das coisas pequenas. Por menores que sejam, as coisas simples voltaram a me interessar.

Minhas bochechas estão rosadas e meu coração está preenchido.


...
e eu amo você.
- obrigada por não desistir de mim, quando eu pensei em desistir.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Querer-se livre

A vizinhança inteira conhece  Rebeca. Não porque ela é simpática (essa é a última coisa que ela sabe ser); a conhecem pelas roupas estranhas e o cabelo despenteado, combinando com a saia riponga e os chinelos de couro, a música perfeita. Tímida, ao sair de casa e encarar os vizinhos, às vezes balbucia um "Oi" baixo, sem graça, assim como sua estatura de ombros caídos pra frente, pois tem medo dos olhares que atrai e sabe o que pensam a seu respeito: maconheira, rebelde sem causa. Mas a única coisa que ela quer é fazer o que tem vontade, sem precisar se vestir da maneira que querem, sem precisar ter a mesma opinião que todo mundo.

Dona Lindalva, moradora da casa de muro azul e portão branco de número 63, sempre estica o pescoço quando Rebeca passa tentando ser invisível e se esquivando dos olhares na rua. Ao contrário de toda a vizinhança, a senhora de cabelos cor de nuvem não julga Rebeca por sua aparência desleixada e um tanto desengonçada, mas admira a coragem da moça, atributo que não teve quando jovem. Lindalva sempre vê a menina sair, às vezes com os pés no chão e amigos em volta, com um jeito solto, mochila nas costas, pronta para abraçar a vida, e ao se apoiar na janela, reflete como todo o espetáculo de aproveitar a juventude passa rápido.

Casamento marcado, 1955. Dona Lindalva não casou com o homem de sua vida, nem por amor, mas por um relacionamento exigido pela família por causa de um feto cuspido em seu ventre. Antes de saber o que era liberdade, antes de abraçar o mundo ou completar os estudos, viveu a vida presa à um casamento que aos poucos virou amor, por costume, talvez. Mas ainda lembra de Bruno, o amor de sua vida. Olhos escuros, cabelos compridos e um sorriso radiante. Lhe chamava de Linda e os dois faziam planos de felicidade eterna. Ano passado recebeu a notícia que fez doer ainda mais seu coração: Bruno faleceu.

A senhora não reclama de sua vida, pois por mais que não tenha passado os anos com o amor que sonhou em ter, casou-se com um homem que sempre lhe respeitou. Porém, dona Lindalva carrega no olhar o peso da vontade de ter sido livre como Rebeca, explorar o mundo da maneira que quer. Nunca foi uma mãe que carrega os filhos numa bolha, justamente por ter sentido o peso do sufoco de não poder gritar.

Ao olhar pela janela, dona Lindalva tenta resgatar da doce criatura que dança entre as árvores da rua, um pouco da liberdade que um dia imaginou ter, e exalta: "Vive, Rebeca... e não deixe que esses olhares lhe parem!"

A vizinhança inteira conhece dona Lindalva. Não porque é a avó que todos querem ter. Mas porque sabem da dor que carrega em seu coração.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Infância amiga

A conheci no ensino fundamental, terceira série. Mas nos conhecemos mesmo na quinta série. Lembro até hoje do primeiro diálogo, quando timidamente me apresentei para a menina de cabelos ondulados à minha frente:

- Oi, meu nome é Camila, e o seu?

- Clara.

Clara era uma menina de poucas palavras (inicialmente), filha de uma das professoras do colégio. Tinha uma pele bem branca, olhos cor de amêndoa e cabelos castanho-claro.

"Você vai andar com essa menina?" - certa colega de classe me repreendeu - "Ela come borracha!". Lembro disso como se fosse hoje. "Ela come borracha?" - pensei - "Até parece!"

Sem me preocupar com a opinião alheia (mas com um certo preconceito confesso), eu vi em Clara uma lealdade que jamais encontraria em outra garota naquele colégio. Era como se existisse uma parte de mim em forma de menina branca e baixinha. Éramos inseparáveis e nos denominávamos irmãs de espírito.

Conforme fomos nos conhecendo, passamos a trocar confidências e nos tornamos melhores amigas de classe. Dividíamos o lanche na hora do recreio, as dúvidas em Matemática - com a professora que parecia um dos integrantes da banda favorita da Clara - e nos divertíamos jogando vôlei na aula de Educação Física.

Os finais de semana eram divididos entre filmes na minha casa e brincadeiras nas ruas de Guarulhos - onde a Clara morava.

Lembro do bolo de chocolate e da torta de salsicha da mãe dela (essa, eu fiz minha mãe aprender a receita!). Lembro das idas ao shopping de Guarulhos, quando só comer uma porção de batatas fritas era o suficiente pra fazer uma tarde de domingo feliz.

Ouvíamos música! Enquanto Clara era apaixonada por heavy metal, eu preferia música pop ou hard core. Nisso, não concordávamos!

Conforme fomos crescendo e amadurecendo, dividimos também nossas descobertas e interesses sobre misticismo, espiritismo e budismo. Nisso, tínhamos sintonia!

Foram anos de histórias boas, histórias que ficam na memória.

...

Existe um branco em minha cabeça que me faz pensar: "Por que a vida nos leva a rumos que nos faz perder a essência e, consequentemente, nos afasta de pessoas importantes?"

Não existe resposta.

O que existe é a eterna lembrança de uma infância maravilhosa que afaga meu peito e me faz sorrir saudosamente todas as noites ao me deitar.

Obrigada, amiga!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Só pra você. (porque senti vontade).

“Por quê não abrir aquela porta no final do corredor?” A ideia começou a fervilhar na minha cabeça, como um batuque ritimado, sem parar. As consequências de abrir ou não a porta também começaram a preocupar meus pensamentos:
 
  1. Se eu manter a porta fechada, estarei bem e segura. Pra que abrir a porta se eu não sei o que tem dentro dela?
  2. Se eu ousar abrí-la, pode ser que eu me depare com um caminho novo (e isso pode ser bom - ou ruim).
  3. Abre logo essa merda. Você sempre foi impulsiva. Vai e mostra quem você é, garota!
  4. Se eu abrir posso me fuder. Pela terceira vez.
  5.  
Pois é. Como se não bastasse a dúvida, o sentimento prazeroso de saber que alguém estaria me esperando do outro lado era o que mais me atordoava. Era você. Você estava lá do outro lado, querendo me fazer sorrir, podendo me fazer chorar.
 
Durante a jornada da confusão e dos batuques de Olodum batendo na minha cabeça, passei por dias e dias. Houve dias em que eu evitava cruzar o caminho daquela porta dos infernos e noutros simplesmente me esquecia que ela estava ali, me chamando. Houve dias em que cheguei bem perto da fechadura e a acariciei com malícia, vontade de abrí-la.
 
Até que houve aquele dia – aquele dia! – em que eu tentei abrir, lembra? Mas aí veio você e toda a decepção que uma mulher (com dor de cotovelo) pode ter. A decepção e a – quase – certeza de que tudo aquilo não valia a pena.
 
Doeu um pouco saber que a realidade seria feroz o bastante dali pra frente. Tão feroz que meu sentimento voltou à estaca zero. (Mentira, eu ainda te amava).
 
Por mais um tempo (dessa vez não durou muito), eu evitei a porta e sua maçaneta tentadora. Até que um dia, ao passar por ela, lembrei que você ainda estava ali, mandando sinal de luz pelo buraco da fechadura, tentando me levar de volta pra você e me amando com aquele sorriso que me derruba. (Já falei que aprecio o seu nariz, mas o seu sorriso apaixonado é “ahhhhh”... suspíro!)
 
[ Voltando ]... ao lembrar que você ainda estava ali, mandano sinal de luz pelo buraco da fechadura, tentando me levar de volta pra você, percebi que eu não estava nem aí para nada do que aconteceu. Eu não estava nem aí se você errou, se você fez cavanhaque ou se preferiu jogar video game ao invés de me ver. Tudo o que eu pensava era em me fazer feliz. A vontade de abrir a porta sempre foi muita.
 
Então eu a abri. Na verdade, escancarei a porta. Mesmo com decepções, o caminho que encontrei ao atravessá-la é acolhedor. Nunca andei por estradas como essas em minha vida. Aqui, posso andar descalça que o chão não machuca meus pés. Posso falar o que eu penso e agir como eu quero.
 
Não sei se é o caminho certo, mas sei que é o caminho que eu quero seguir hoje.
 
Só com você. (porque senti vontade).